Sair do quarto nunca é uma tarefa fácil. Lá é confortável, seguro e tem quase tudo que você precisa. Conhecendo o mundo lá fora, uma hora ou outra você acaba criando coragem para sair. Mas e se você tivesse que encarar o mundo hoje pela primeira vez?

É sobre isso que trata o filme “O Quarto de Jack”, a história da mãe Joy e do filho Jack. Há anos vivendo em um cativeiro, Joy dá à luz a Jack, resultado de um estupro cometido pelo sequestrador Nick. O fato é: com 5 anos de idade, o único cenário que Jack conhece é o quarto. Mesmo acreditando fielmente que não existe um mundo da porta para fora, o menino parece muito mais preparado para explorar o novo do que a própria mãe.

Deixando de lado a parte dramática, o que nos interessa é a construção desse personagem a partir de sua realidade na narrativa. Não é por acaso. Crianças, por si só, são seres curiosos, alimentados pelo imaginário. Mas Jack, interpretado por Jacob Tremblay, provoca um envolvimento no espectador. Afinal, ele nos faz mergulhar na sua perspectiva sobre o mundo. Por vezes, é possível acreditar que quem desconhece o mundo somos nós.

Ao longo do filme, descobrimos que Jack não consegue diferenciar realidade e imaginação. Ainda que estranho, pensa comigo: não é lógico acreditar que existem casas, árvores e cachorros dentro da tela de televisão, se você não entende o que é uma imagem? Que outra conclusão ele poderia tirar? É essa falta de discernimento que traz ideias tão originais da cabeça dele.

Para mim, o filme traz o conceito de semiótica desde as primeiras cenas. A mãe quando explica que a TV retrata as coisas e as pessoas reais; a percepção do menino quando diz que “pessoas da TV são achatadas e feitas de cores, mas você e eu somos reais”. São cenas pensadas com muita sensibilidade e capazes de transformar nossa forma de ver o significado das coisas ao nosso redor.

(Spoiler!)

O ciclo do personagem se fecha quando Jack volta ao quarto e demonstra que já não pertence àquele lugar. Sair do quarto foi uma tarefa difícil. Lá era confortável, seguro e tinha quase tudo que ele precisava. Mas ele não conhecia o mundo. E era isso que faltava para ele nunca mais querer voltar.

POR QUE É DESCOMMODITY-SE?

Individualmente, encarar novos cenários gera muito desconforto. É um anseio e uma expectativa por explorar e adaptar-se aos meios que, cá entre nós, acaba que nem sempre é saudável.

Tirando a parte dramática e triste do filme, “O Quarto de Jack” dá uma aula completa sobre percepção. Dê um passo para trás, perceba o significado e a importância das coisas e deixe que a imaginação guie suas ideias.

Não é um processo tão longo assim, mas que precisa ser implantado em cada um de nós. Já parou para pensar em quantas ideias diferentes você deixou de ter por robotizar o processo de criação?

Isadora T. Salines

Assistente de redação

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