O ser humano tende a ter uma visão superficial da vida. Somos condicionados a acreditar naquilo que nossos olhos alcançam. Essa condição, que em alguns casos se torna uma verdade absoluta, ao ser disseminada se transforma no chamado senso comum: nada mais que a condição inicial.

Não tem fim. É cíclico.  

Esse modo imediatista de levar a vida muitas vezes guia nossas ações, impedindo que tenhamos momentos genuínos de clareza. Sempre pensei nisso e recentemente vi uma série na Netflix que me fez refletir mais sobre o assunto.

A série se chama Areia Movediça e conta a história de Maja, uma jovem acusada de participar de um atentado em sua escola. Ela não tem uma memória clara dos acontecimentos, o que reforça o mistério. Basicamente, o plot da série é isso. Não vou me aprofundar para não dar spoilers e porque o intuito desse texto não é falar da série como meio de entretenimento.

Por mais que a série trabalhe bem esse mistério, o motor da trama é a construção dos personagens e, principalmente, o relacionamento entre Maja e seu namorado: um garoto rico, envolvido com drogas e emocionalmente perturbado devido ao tratamento abusivo do pai.

Mas o que isso tem a ver com o senso comum? Tudo.

A série caracteriza propositalmente os personagens principais em sua narrativa inicial, fazendo com que o nosso senso comum seja ativado, como se fosse um interruptor, e por consequência acabamos ficando imersos em nossos pré-julgamentos criados por uma sociedade viciada: “Ah, é óbvio que essa garota é maluca”, “com certeza foi esse garoto drogado”.

No entanto, no desenrolar da trama, vendo a história de cada um dos personagens, seus traumas e que os levou até o atentado, me surgiu alguns questionamentos: “Se a minha vida fosse desse jeito, eu não faria o mesmo?”, “Nessa situação, eu agiria assim?”.

Essas perguntas ficaram martelando na minha cabeça enquanto eu assistia à série. Não é por menos, convenhamos: é difícil admitir que talvez você possa ter um lado “ruim”, mesmo que em situações extremas.

A partir desses questionamentos e acompanhando mais a história de cada personagem, eu tive uma epifania: “Se eu consigo ter empatia e me imaginar nessas situações, por que instintivamente eu criei um desfecho antes de entender por completo?”.

Eu realmente nunca havia pensado nisso de verdade.

Quando eu terminei a série, estava com um misto de clareza e tristeza. Clareza por reforçar algo que eu já sabia: vivemos em uma sociedade dicotômica em que só existe o certo e o errado, forçando-nos a seguir uma linearidade de pensamento e, por consequência, exercemos a empatia apenas quando nos convém. E tristeza por ver que eu sou parte desse modelo de sociedade, já que levei boa parte da minha vida no piloto automático, me deixando levar por esse pensamento linear.

Areia movediça é provocativa, brutal e necessária. É importante ressaltar que a série não tem o objetivo de justificar o ato dos personagens, tão pouco os vitimar, mas sim retratar um ponto importante da vida: o senso comum engana mais do que parece.

POR QUE É DESCOMMODITY-SE?

No livro O Universo e o Dr. Einstein, Einstein diz que o senso comum é um conjunto de preconceitos adquiridos até os 18 anos. Eu concordo com ele, pelo menos em parte. Nossa programação normal é rotular tudo e todos em apenas alguns segundos, e um dos fatores é o acúmulo de preconceitos. Aliado a isso, atualmente vivemos na cultura do imediatismo.

Se boa parte dos nossos pensamentos e ações são conduzidos pelo senso comum e não temos muito tempo, qual é o valor da nossa entrega?

É irrisório. Não há nada de genuíno.

Areia Movediça mostra que, mesmo todos os caminhos levando a uma resposta, não quer dizer que essa é a única resposta. Precisamos parar, pensar e fazer as perguntas que ninguém faz. Só assim é possível ter nossa própria régua de discernimento e, de fato, um pouco de originalidade.

Guilherme Schlindwein

Assistente de atendimento

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