Diga-me como tratas um robô e te direi quem és

Imagine robôs perfeitamente idênticos a homens, mulheres, crianças. Parecem com você, com seu sobrinho, comigo. Ainda assim, são máquinas. Como você os trataria?

“Westworld” é uma série que envolve sci-fi, western e filosofia. Explorando clichês do velho oeste americano, apresenta um parque onde os personagens – bartenders, prostitutas, xerifes, bandidos – são “anfitriões” robóticos, programados para interagir com seus convidados humanos. Essas máquinas inteligentes parecem pessoas comuns. Inclusive, nós espectadores frequentemente somos confundidos sobre quem é um robô e quem é humano. Nesse playground de gente grande, vemos exposta uma das questões mais caras aos dias que vivemos: a ética nas relações entre uma inteligência artificial e a nossa limitada humanidade.

 

 

As pessoas/convidados podem se comportar como quiserem. Algumas assumem papéis heroicos, mas outras escolhem libertar seus impulsos mais sombrios.

Como já vimos em clássicos como “Planeta dos Macacos”, ”Jurassic Park”, “Tubarão” e “Serpentes a Bordo” – que filme! – as coisas dão errado para os humanos. Mas estamos interessados aqui em outra discussão: nossas relações com máquinas inteligentes podem revelar obscuridades em nossa natureza humana?

“Sabe por que isso é melhor que o mundo real, Lawrence?
O
mundo é caos. É um acidente. Mas aqui, cada detalhe acrescenta a alguma coisa. Até você, Lawrence.”
William, um humano aficionado pelos desafios e prazeres do parque.

   

Enquanto discutimos “quem os carros autônomos devem atropelar?”, ou “quem vai ficar desempregado com a evolução das inteligências artificiais?”, a série inverte nosso ponto de vista e nos mostra o olhar de máquinas conscientes, com crenças, desejos e a moralmente agressiva capacidade de sofrer.

Hoje, a ciência não vê razão para acreditar que a consciência precise ser feita de carne. As mentes conscientes são, provavelmente, o produto do software certo. Observando as notícias vindas de lugares como o SXSW, parece apenas uma questão de tempo até emularmos o funcionamento do cérebro humano em supercomputadores.

E mesmo que se acredite que apenas sistemas biológicos possam ser conscientes, esse desenvolvimento também parece se aproximar de nossos dias graças aos avanços da engenharia genética. No caso de “Westworld”, vemos os robôs sangrarem aos litros!

 

 

Em outra obra, o filme “Ela” (Her, 2013), nos vemos desorientados pela voz de Scarlett Johansson – sacanagem! – para mostrar o quanto um sistema operacional pode ser sedutor.

De fato, experimentos com IA e robótica já mostraram quão rápido atribuímos sentimentos a máquinas que se parecem e se comportam como agentes independentes – lembro de uns vídeos onde cientistas empurram um robô com pernas para testar o equilíbrio da máquina; é de dar dó ver o esforço do humanoide para se manter de pé.

Multiplique essa tentação de antropomorfizar mil vezes até chegar a um cavalheiro que o envolve em conversas inteligentes e que entende mais suas emoções do que seu melhor amigo. Seria irresistível ver essa criatura como uma pessoa!

 

 

Entretenimento à parte, “Westworld” é um poderoso gerador de filosofia. Muito além de discussões abstratas quanto às nossas relações com robôs, assistir à série é testemunhar os tormentos de tais criaturas, retratadas por atuações fortes e sensíveis – à exceção do brasileiro Santoro, que já fez coisas melhores em português.

Você pode até achar tranquilo maltratar máquinas. Mas, a série certamente vai mexer com sua visão em relação a humanos que estupram, torturam e matam esses robôs.

“Oh Felix, você realmente é um ser humano terrível.
E digo isso como um elogio.”

Maeve Millay, anfitriã.

Nesse cenário, os robôs são os mais humanos. E os humanos são monstros.

Por isso tudo, “Westworld” é mais uma daquelas obras de ficção científica que vão além de nos maravilhar com cenários futuristas. É, como exige-se das grandes obras literárias, uma arena conceitual para você pensar seu próprio lugar no mundo. Neste caso, um mundo que se aproxima a uma velocidade exponencial.

“Os humanos acham que há algo de especial na forma como entendemos o mundo, e ainda assim vivemos em círculos, tão apertados e fechados… raramente questionando nossas escolhas, satisfeitos, em sua maior parte, a sermos informados sobre o que fazer em seguida.”
Robert Ford, humano, criador do parque.

Lá no começo, fiz uma pergunta.
E aqui, inverto o olhar: ser cruel com máquinas nos faz menos humanos?

Poster da série:

Fábio Henckel

Diretor de criação

O Fábio vai fazer você ter muitas dúvidas sobre o futuro da sua marca. E depois te ajudar a desenvolver muitas certezas sobre elas. Com 20 anos de experiência, ele já foi reconhecido com o Galo de Ouro, no Festival Internacional de Gramado, Redator do Ano no Salão Promocional da ARP e Bronze no Prêmio Latino Americano Wave

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