A origem da tendência

Nesta semana, a internet foi inundada por imagens em anime de praticamente todas as pessoas que possuem um perfil na internet.

O artista “por trás” da trend é Hayao Miyazaki, 83 anos, lendário diretor de cinema japonês, responsável por clássicos do anime como A Viagem de Chihiro, Castelo Animado e Meu Amigo Totoro, Filmes reconhecidos não apenas pelo cuidado com a animação, mas por desenvolver histórias épicas e mundos ricamente construídos.

O estilo de ilustrações que vimos na trend é o traço característico de seu estúdio de animação, Ghibli , que teve suas primeiras obras criadas em 1985, em uma época em que grande parte do processo de ilustração ainda era artesanal. 

E hoje, com a ajuda de IAs generativas, qualquer pessoa pode ter uma imagem com o estilo do estúdio em poucos segundos apenas pedindo o desenho para uma ferramenta. Diferente das originais, as réplicas são reproduzidas com praticamente nenhum esforço, e talvez por isso Miyazaki já tenha se posicionado contra a geração de imagens geradas por inteligência artificial.

Em 2016, antes mesmo do ChatGPT existir, o diretor fez uma ode à imperfeição do processo ao criticar o processo de criação de imagens através de inteligências artificiais e algoritmos: “Estou completamente enojado. Se você realmente quer fazer coisas assustadoras, pode ir em frente e fazer. Eu nunca desejaria incorporar essa tecnologia ao meu trabalho. Sinto fortemente que isso é um insulto à própria vida.”

Inteligência orgânica

Hoje, você pode pedir para uma IA fazer o quadro do seu artista preferido, como Van Gogh, Picasso, Akira Toriyama ou Akihiko Yoshida.

Mas qual é a beleza disso?

Com o grande crescimento do poder tecnológico e capacidade das IAs, surgem movimentos contrários, que buscam reconectar as pessoas à incerteza do processo.

Por exemplo, a obra de arte “Comedian” do artista italiano Maurizio Cattelan, famosa a ponto de participar de um comercial do superbowl, consiste apenas em uma banana real presa a uma parede com fita adesiva prateada. 

“O Comediante” gerou polêmica ao ser arrematada em leilão por milhões de dólares, e confesso que quando eu vi o quadro pela primeira vez, eu também fiquei irritado.

Quem pagaria milhões de dólares em uma banana?

Mas você sabia que bananas possuem um design perfeito?

Elas têm uma embalagem natural que a torna facilmente transportável em sua bolsa ou mochila que além de proteger o fruto também não faz sujeira.

Ela é capaz de emitir alertas, sua coloração muda de verde para amarelo forte, indicando o momento ideal para o consumo.

Além disso, possuem um “grip” perfeito, permitindo que sejam comidas facilmente como um lanche rápido.

Uma obra-prima da natureza, estabelecida através de anos e anos de seleção natural.

Será que a bizarra obra de arte da banana com silver-tape possui um significado maior?

O orgânico também é inteligente?

Um manifesto em prol do que não é feito artificialmente.

Paradoxo de Jevons

Alguns dos principais argumentos a favor da IA são velocidade e acesso, mas na medida em que todos terão em mãos uma ferramentas de produção de inteligência artificial, será que conseguiremos manter a qualidade das produções?

Vamos analisar isso pela ótica do Paradoxo de Jevons, nomeado em homenagem ao economista inglês William Stanley Jevons, originou-se de suas observações na indústria do carvão no século XIX.

Na época, as inovações permitiram aumentar significativamente a eficiência do uso do carvão, essencial para a indústria. Logo, as pessoas precisavam de menos carvão para gerar a mesma quantidade de energia, contribuindo para o meio ambiente e o desenvolvimento sustentável.

Porém, paradoxalmente, o que aconteceu foi o contrário: com a energia mais barata, o consumo de carvão aumentou exponencialmente em todas as indústrias.

 

Um exemplo mais fácil de entender: a partir do momento em que criamos alimentos altamente calóricos, que nos permitem comer menos para obter a mesma quantidade de energia, nós deveríamos começar a nos alimentar melhor, não é mesmo?

E o mesmo tem acontecido com o acesso a conteúdo, hoje já se estuda os efeitos negativos dessa descarga massiva e do consumo irrestrito de textos, vídeos e imagens em nossos cérebros (brain rot).

As IAs generativas vão nos permitir produzir muito e mais rápido.

Mas vamos produzir melhor? 

Use com moderação

Apesar das críticas fervorosas de Miyazaki à IA e a iminência de possíveis riscos, não consegui evitar e acabei fazendo uma imagem no estilo do Studio Ghibli da minha família.

Desculpa, Miyazaki. sou seu fã demais para deixar de apreciar uma foto deles no seu estilo de ilustração. 

Destaque especial para meu amado e falecido pai à esquerda, agora também eternizado no estilo de um dos meus diretores/ilustradores favoritos.

Por fim, Princesa Mononoke, uma das principais obras do estúdio, foi relançado em 4K nos cinemas dia 26 de março, em IMAX.

Que momento oportuno para começar uma trend, não é mesmo? (Publicitários tendem a acreditar em conspirações.)

A todos que geraram imagens do estúdio, convido: que tal prestigiar o original?

A IA só é tão rica por causa dos tesouros que deixamos.

 

Matheus Sesterhenn

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