O cinema tem a capacidade de teletransportar seus espectadores. O clima favorece, é claro. Sentados na cadeira do cinema ou no sofá da sala, mergulhamos em histórias emocionantes e cenários (quase) impossíveis.

O envolvimento é ainda maior quando se trata de histórias reais. E se tem uma pessoa que sabe cativar o público com elas, essa pessoa é Ava DuVernay.

Hoje, com 46 anos, ela coleciona obras cinematográficas icônicas como roteirista, diretora, produtora e distribuidora de filmes. Dentre elas, está “Selma”, filme sobre Martin Luther King Jr., indicado a Melhor Filme no Oscar em 2015; “A 13ª Emenda”, documentário da Netflix sobre o sistema carcerário dos Estados Unidos; e “Olhos que Condenam”, uma minissérie recém-lançada, também da Netflix, sobre um caso de estupro que movimentou a imprensa norte-americana no final dos anos 80. Além disso, Ava foi diretora do clipe “Family Feud”, de Jay-Z, que se tornou, recentemente, o primeiro rapper bilionário do mundo.

Praticamente todas as narrativas de Ava têm como foco a população negra. E, para enriquecer cada uma das histórias, ela sabe explorar cada elemento do audiovisual.

Com “Selma”, ela conquistou muito mais que o respeito da crítica: também foi a primeira mulher negra a ser indicada ao Oscar de Melhor Direção. Além de diretora, foi também roteirista. O filme mostra o longo caminho de Martin Luther King Jr. pela liberdade e pelos direitos dos negros até os protestos em Selma, Alabama.

A vida de Martin foi, por si só, bastante dramática. Ava transforma cada um de seus obstáculos em frases marcantes, daquelas que fazem a gente pensar por dias. Os medos, anseios e dúvidas do ativista estão constantemente sendo representados, seja pela atuação de David Oyelowo, seja pela fotografia ou pelas atitudes dos outros personagens. É a narrativa, a forma com que são colocados e marcados os passos de Martin dentro da própria história, que fortalecem o conjunto da obra.

A influência da escravidão na falta de oportunidades para negros é um assunto cada vez mais recorrente, tanto no Brasil quanto no mundo. No documentário “A 13ª Emenda”, dirigido por DuVernay, temos uma aula completa sobre escravidão e sobre a influência da 13ª emenda, lei que proíbe a escravatura exceto por punição por um crime, para a construção do mito da criminalidade negra – criação de estereótipos que dizem, por exemplo, que todo negro é bandido.

Mais uma vez, e com uma construção completamente diferente (principalmente porque estamos falando sobre um documentário), Ava cria uma narrativa em cima de dados, pensadores, como Angela Davis, ativista importantíssima do movimento negro, feminista e música. Sim, Ava usa a música para comunicar sobre sistema carcerário. É de arrepiar. Assista ao trailer e prepare-se para acabar o filme com outra visão sobre o assunto.

Por fim, “Olhos que Condenam”. No estilo “The People vs. O.J. Simpson”, a minissérie conta a história e mostra o julgamento dos Cinco do Central Park — cinco meninos negros e menores de idade que foram acusados de um caso de estupro. Dividida em 4 episódios de mais ou menos 1h20 cada, Ava cria uma tensão dolorosa diferente a cada episódio. A dor das mães, o medo dos meninos e o racismo impregnado em agentes da polícia e da justiça são tão, mas tão reais, que fazem qualquer um chorar. É visível, principalmente na atitude, a frieza dos personagens racistas.

A série é extremamente política e necessária. Defende a descriminalização do negro, assim como em “A 13ª Emenda”, e cativa pela pureza dos acusados e pelas relações com seus parentes. Ava causa impacto pela importância de enxergar a realidade. Não tem nada de fictício nas cenas de “Olhos que Condenam”. Classificada para maiores de 18 anos, as cenas fortes não foram poupadas.

A minissérie foi lançada recentemente, mas vem prêmio por aí! Assista ao trailer:

POR QUE É DESCOMMODITY-SE?

Olhe ao seu redor. O que pode ser transformado em conteúdo? Ter um olhar diferente para a realidade ajuda a gente a treinar nossa forma de contar histórias. E essa é a graça: ter uma narrativa própria com cada coisa que precisamos criar.

Às vezes algo novo não é exatamente algo que ainda não foi visto, por exemplo, mas algo que não foi contado de outra forma. Assistir a séries e filmes e ler livros que mostrem perspectivas diferentes do comum inspiram a chavinha das ideias a virar. Além disso, ajudam a ter empatia com lutas que não são nossas, mas que também merecem ser representadas. Dê uma chance às indicações e abra sua mente para novas criações.

Isadora T. Salines

Assistente de redação

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