No dia 15 de janeiro de 2009, o comandante Chesley Sullenberger fez todos os preparos para levantar voo em seu Airbus A320 da US Airways. Com uma experiência de mais de 40 anos de serviços prestados na aviação e mais de um milhão de passageiros que estiveram sob sua responsabilidade, tudo não passava de procedimentos padrões, quase automáticos para alguém com uma rica bagagem em sua área de atuação. Dessa vez, seu trajeto seria de Nova Iorque para Charlotte, no estado da Carolina do Norte. O avião contava com 150 passageiros. Seis minutos após decolar do Aeroporto LaGuardia, o avião repousava flutuando nas águas do rio Hudson após uma pane nos dois motores que forçou o comandante a tomar decisões extremas em um período curtíssimo de tempo. Toda a tripulação e seus passageiros sobreviveram. O evento ficou conhecido como “o Milagre do Rio Hudson” de tão improvável que eram as chances de sucesso.

Sully, como era conhecido, em um primeiro momento foi reverenciado como um herói nacional. Porém, depois de passado o frenesi inicial e do começo das investigações para ver o que de fato havia ocorrido, começaram os questionamentos. Tudo apontava que Sully poderia ter dado meia volta logo após o ocorrido e retornado ao Aeroporto LaGuardia sem maiores problemas, poupando o avião e sua tripulação, sem que houvesse grandes sustos. Dezenas de simulações foram realizadas, e em todas o Airbus A320 poderia ter retornado em segurança sem a necessidade daquela manobra que tinha todo o potencial de ser trágica. Sully, de herói, estava prestes a se tornar vilão. O que todas essas simulações ignoravam era o fator humano. Não há como emular o extremo ignorando a tomada de decisão sob pressão.

Quem nunca viu um jogo de futebol em que era visível para você, olhando pela tela da TV e sentado confortavelmente em sua poltrona, que o meia deveria ter passado para o atacante muito melhor posicionado e de frente para o gol do que ter dado o chute que caprichosamente beija a trave e vai para fora? Existem muitos fatores interligados, como pressão do campo de jogo, torcida te apoiando (ou vaiando) e fadiga muscular que influenciam a tomada de decisão em uma fração de segundos, podendo custar uma eliminação e quem sabe até mesmo seu emprego no futuro. Toda ação que dá errado sempre parecerá óbvia após o acontecido. Tocar para o atacante livre claramente era a melhor opção. Mas no calor do momento, o fator humano entra em campo, e é bom você estar preparado para tomar a melhor decisão possível.

Essa reflexão surgiu enquanto eu assistia “Sully”, na Netflix, com direção de Clint Eastwood e estrelando Tom Hanks como o comandante Sullenberger. No entanto, enquanto o filme se desenrolava, pude fazer outros paralelos com coisas que havia lido. Me veio à mente “Outliers”, de Malcolm Gladwell, que falava, entre outras coisas, que são necessárias pelo menos 10 mil horas de prática para se tornar um fora de série em determinada habilidade. No caso de Sully, sem dúvidas sua manobra prodigiosa só foi possível por causa de toda a sua bagagem em 40 anos como piloto. Qualquer mínimo erro, e toda a história seria diferente. Outro livro que me veio à cabeça foi “Skin in the Game”, de Nassim Taleb, quando burocratas começam a desconfiar que Sully poderia ter tomado a decisão errada, excluindo todos os fatores de temperatura e pressão em que 150 vidas (incluindo a sua própria) dependiam das suas tomadas de decisões pelos próximos 60 segundos. Ter a pele em jogo muda o cenário completamente. A vida é um jogo de informações incompletas em que se toma as melhores decisões possíveis com o que sabemos no momento. O fator humano tem um papel fundamental nessa equação. Se ele for excluído, toda a conta estará errada.

Guilherme Bueno

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