Existe uma tentação constante no marketing de sofisticar demais o que, na prática, deveria ser simples. A história da campanha de Bill Clinton em 1992 é um bom antídoto contra esse impulso.

Naquele momento, os Estados Unidos viviam uma recessão relevante. O desemprego crescia e a percepção econômica das pessoas piorava, mesmo com um presidente — George H. W. Bush — fortalecido pela vitória na Guerra do Golfo. Ou seja: havia um descompasso claro entre aprovação política e realidade econômica. E, em eleições, percepção concreta pesa mais do que narrativa institucional.

É nesse contexto que James Carville, estrategista da campanha de Clinton, toma uma decisão aparentemente banal, mas profundamente estratégica: escreve em um cartaz três diretrizes para a equipe. Uma delas se tornaria icônica — “It’s the economy, stupid”.

 

Consistência de marca começa com foco.

Não era apenas um slogan. Era um mecanismo de foco.

A função desse tipo de frase não é inspirar. É restringir, impedir dispersão, evitar que a campanha caia na armadilha de falar de tudo um pouco — política externa, valores, história, propostas amplas — e acabe não sendo lembrada por nada.

Carville estava, na prática, resolvendo um problema clássico de comunicação: excesso de mensagens competindo pela mesma atenção.

Quando você traduz isso para o mundo de marcas, a lógica é idêntica. Empresas tendem a acreditar que precisam comunicar todos os seus atributos: qualidade superior, preço competitivo, inovação tecnológica, responsabilidade ambiental, tradição, atendimento, experiência. O resultado, quase sempre, é diluição.

 

Por que a consistência exige simplificação?

Do ponto de vista cognitivo, isso não funciona. O cérebro humano não armazena listas longas de argumentos. Ele opera por simplificação. Ele precisa de atalhos. E esses atalhos são construídos por repetição consistente de uma mesma ideia ao longo do tempo.

Byron Sharp chama isso de construção de estruturas de memória. Não se trata de convencer profundamente — trata-se de ser facilmente lembrado em situações de compra.

E memória não é democrática. Ela não guarda tudo, mas sim o que é repetido.

É por isso que a lição de Carville é tão poderosa quando aplicada ao marketing: toda marca precisa descobrir qual é a sua “economia”. Ou seja, qual é o problema central que resolve, ou o desejo principal que atende.

Não são dez coisas. É uma.

Pode ser status, praticidade, segurança, desempenho, economia de tempo. Mas precisa ser claro e, principalmente, consistente.

 

Como a consistência de marca é construída pela repetição?

A partir daí, o trabalho não é reinventar a mensagem a cada campanha. É fazer o oposto do que a maioria faz: repetir.

Repetir com variações criativas, sim. Mas repetir a mesma ideia-base, o mesmo território, os mesmos códigos.

Porque o que constrói marca não é novidade. É familiaridade.

A evidência empírica mostra isso. Estudos da IPA e da System1 indicam que consistência criativa e repetição de códigos de marca aumentam a eficácia ao longo do tempo. Não existe “cansaço” estrutural de mensagem — existe abandono prematuro de algo que ainda não foi suficientemente memorizado.

Em outras palavras: o problema raramente é falar demais de uma mesma coisa. O problema é não falar o suficiente.

Marcas fortes entendem isso e operam com disciplina. Elas não tentam ser tudo. Elas escolhem um território e o ocupam repetidamente até que se tornem sinônimo dele.

 

 

Consistência de marca é disciplina de comunicação

No fim, a lógica é simples.

O que fica na cabeça das pessoas não é tudo o que você faz.

É aquilo que você insiste em dizer.

Gustavo Ermel

Diretor de estratégia e inovação

O Gustavo acumula experiência em desenvolvimento, planejamento, consultoria e suporte de estratégias para o posicionamento sustentável de marcas de renome nacional e internacional. E se você pensa em fazer sua marca valer mais, ele é o cara que te ajuda a fazer isso.

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